sim, sintonia

25 de nov de 2011

Grande alegria é estar na mira de uma encomenda como a que recebi essa semana. Bruno Neiva, parceiro e interlocutor de Portugal, agora morando na Coruña, Espanha, apareceu por aqui nesses trópicos entrópicos de Além-Mar sob a curiosa forma de um envelope.

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Os fragmentos que se seguem são uma homenagem à “lei natural dos encontros”. (É provável também que depois isso se organize e se amplie de forma mais urbana. Uma promessa.)

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O livro das minhas proezas de pesca (1-8) apresenta uma série na qual se percebe um intenso sentido de forma que implica a renúncia às constraintes institucionais do verso e da sintaxe discursiva. Como nos versos propositivos do início, “ocupa a mesa / diz / coisas / sem querer / por querer / fingir / crer [...]” (#1), que pertencem a um minimalismo de contenção e contágio. Contra o consumo facilitado/facilitador se insurge essa poética intensiva (não confundir com “reduzida”) que se apropria das ruínas das falas projetando-as em interfaces complexas e anti-monumentais. Um inscritor (como Bruno Neiva se anuncia em meta-transcrição) que mimetiza o conformismo de seu leitor, denunciando-o: “em homenagem à tua estabilidade, agora disponho os fatos por ordem alfabética” (#5).

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Re/res.

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Nos samples, como anunciado, a dinâmica de re-processo e deslocamento cria seu eixo orbital mobilizando essa poeira de poeira de fala, de artifício, que se inscreve a partir de desvios da linearidade tipográfica. A ruptura com a linearidade da escrita (não da escritura, que já é múltipla) é antecedida pela implosão dos sentidos promovida pelos novos circuitos sígnicos que modulam nossas fala, audição, visualidade, etc. Vale a pena retomar o que se inscreve na contracapa do chapbook sob o nome “Ficha técnica”: “Reorganização sintáctica / rítmica / espacial de textos rejeitados pelo autor (síndrome de reciclagem) [...]”. A alteração dos ciclos por sua reativação. Uma grande máquina devoradora. “A linguagem é um vírus”, como nos disse W. Burroughs em The electronic revolution.

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Sintonia.

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Junte-se a isso uma série de quatro objetos (“cartões-poemas” para ser um pouco mais claro), que anunciam um deslocamento do eixo monopolizador da visualidade para a operação tátil. Explico: em uma das faces, um trabalho visual, e na outra fragmentos de fala como: “Where should we”.

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Nada mais parecido com uma constelação do que uma guerrilha, que exige, por sua dinâmica, uma estrutura aberta de informação plena, onde tudo parece reger-se por coordenação (a própria consciência totalizante em ação) e nada por subordinação. (D. Pignatari, Teoria da guerrilha artística)

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Res/escritura. Ex/escritura. Res/ex/escritura.

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Em this is visual poetry (projeto que merece ser conhecido e divulgado) by bruno neiva, uma série de poemas visuais intitulada threshold draft (1-16) por meio da qual o autor reivindica mais uma vez pertencimento a (ou diálogo com) um repertório ruidista, do inacabamento, processual. Essa quasilíngua transtátil, que se desfaz sempre em outras configurações instáveis, de onde se originam outras, etc. A escritura ausente de suas negociações mercantis, geminada, prospectiva.

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Viva. Conheçam o trabalho do Bruno Neiva clicando aqui e aqui

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To be continued.

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