anotário

29 de out de 2011

A poética da posse contra a propriedade de que nos fala Décio Pignatari em seu texto seminal “Marco Zero de Andrade” é uma formulação conceitual que parece não ter desdobramentos na produção de poesia contemporânea. Assim como todo o ímpeto crítico e teórico de Augusto e Haroldo de Campos que a cada dia é mais incorporado a esse museu indevassável, que permite a seu público apenas a oscilação entre a veneração e a vingança (práticas mistificadoras centradas em uns poucos tópicos, muitas vezes banais e devidamente didatizados, de uma vasta poética do complexo). Assim como a radicalização formal de Wlademir Dias Pino e do Poema/Processo, reorganizando a partir de um novo paradigma teórico que nasce não como justificação prévia de um projeto personalista, mas como uma implicação simultânea da produção poética proposta, etc.

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As reivindicações de pertencimento a esse repertório degeneram em disputas de prováveis heranças. Sem a preocupação de se estabelecer uma revisão cuidadosa de suas conquistas (que são muitas, não se pode negar) a celebração festiva e o insulto ao alheio estabelecem entre si o contraponto necessário para se instaurar uma quase-polêmica que embala em mornidão incontornável os debates sobre poesia. A partir desse sistema de referência tácito/tático formam-se agrupamentos, ou clubes de poesia.

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De novo, a poética da posse contra a propriedade de que nos fala Décio Pignatari em seu texto seminal “Marco Zero de Andrade”, etc.

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Poéticas nômades, que se insurgem contra os mitemas da invenção e da ruptura, eclodem por todos os cantos e ampliam o espectro pós/produtivo, mas o barroquismo histérico, adjetivador e ególatra ainda se fixa entre nós como uma possibilidade real de inscrição. Agenciada pelo consumo, que imprime a continuidade da inovação sobre a descontinuidade da experiência, essa gramática do fazer poético se outorga o uso do qualificativo humanista (lembranças de “humanimaldade” de cummings, via tradução de A. de Campos), sem, no entanto, compreender que é uma ratificação do senso comum.

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O prosaísmo é uma doença do e para o homem profundo. O falar banal, que melindrou Mallarmé (escrevo isso a despeito da centralidade da obra do poeta francês em algumas das proposições dos autores citados anteriormente), é um fato incurável. Já a profundidade é uma justificação da inépcia ao tato, uma mistificação derivada das totalizações de uma civilização tipográfica (ainda McLuhan). Daí a insistência nas imagens do Labor, de que é resultado especialmente a frase muito comum em colóquios de poesia que envolvam poetas e/ou acadêmicos: “O poeta labora a palavra”. O projeto de valorização da figura individual do poeta enquanto mecanismo agenciador de valor é uma tautologia. Tautologia genealógica. A suposição de que o cotidiano é uma superfície devastada que merece ser salva sob o abrigo/abismo da metáfora sagrada é no mínimo curiosa. Poesia para escafandristas.

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Item: Cada vez há mais exceções. Talvez (e esse é meu desejo) essas notas relatem uma circunstância da qual nos lembraremos um pouco constrangidos.

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"A poesia de Oswald de Andrade é a poesia da posse contra a propriedade. Poesia por contato direto. Sem explicações, sem andaimes, sem preâmbulos ou prenúncios, sem poetizações. Com versos que não eram versos. Poesia em versus, pondo em crise o verso: um prosaísmo deliberado que é uma sátira contínua ao próprio verso, livre ou preso." (Marco Zero de Andrade, Décio Pignatari)

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etc.

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