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Dia de sol demais. Meu Deus. De sol.
A gente tenta ver as coisas. Coisas
todas excedidas. A gente tenta.
Meu Deus. Cadê cortina no meu céu.

Cadê o Ray-Ban que já foi meu. O dia
no jardim em pânico de reflexo.
Assim como a geladeira, o teto.
Tudo grita “Ah” quando eu vejo “Ah”.

Vamos ser claros, sim. Ou menos claros.
É. Vamos ser rasos, sem fazer caso.
Porque nenhuma sombra me ilumina.

Que vida sem fumê. Meu Deus. Pra quê
fazer cegar o que é para ser visto.
Melhor lavar o rosto e ver TV.
entre isso
e aquilo
fico com o e

fico com o fio
q liga
o início ao fim

com o sem-sentido
q assente
sem ter o q

com toda lente
q aumente
o q é sentir

“entre o sim
e o não
existe um vão”

já arrebentou
a vitrine
o assumpção

entre isso
e aquilo
fico com o e

e vou somando
o q é som
ao q não
alegria já
se esconde
bem atrás
do q
não vejo
e o q ouço
é esse
oco
e o q eu
posso é
esse fosso
q separa
o sim
do senso

alegria esse
silêncio
de paredes
sem saída
postes
cegos pelas
ruas
um isqueiro
e gasolina
ninguém
se aguenta
madame
quem é que
inventa

esse scarpin
q ninguém
calça
madame
quem toca
a valsa

em 1 + 2
melhor descalça
madame
do que
na reta

e quem promete
o quanto
mete
madame
ninguém conhece


apêndice

upa lorinha
na calçada
madame
upa pra lá
upa pra cá

upa pra onde
madame
virgem
q coisa
mais q linda

mais lindinha
madame
upa lorinha
começando
a andar

madame
madame
variações sobre comuns : pesquisa rítmica de despojos

I.

demitir a velha de seu
celibato por
exemplo

eu sei que
não sei se isso chega a
uma solução

ou seja quer
dizer que eu quero dizer que
eu pelos declives que tenho testemunhado

eu é uma expectativa interessante
não
ficar de boréstia


II.

por que você tem tanta culpa eu fico
como
se estivesse impressionada
com o fato de

você sabe
ou
pelo menos deveria
há quanto tempo

a gente
está aqui rezando aqui
sem relógio
não

não
é jogar dominó
há quanto tempo a gente
está aqui sem o que


III.

isso não é hora meu
amor de ouvir
bach

de ouvir o que
seja você
disse outro dia

o que seja
a gente não precisa
ouvir bach

estou de saco cheio
de bach
e de ouvir

digressão
formigas
cante alguma coisa

o que
seja um motor de moto
um ventilador sem paz


IV.

por exemplo eu
fico
aqui no aguarde do que poderá
uma goteira
que encharca o juízo

são experiências como essas que
definem
uma intensidade apenas prometida
pelas superfícies
não
eu não acredito em
alguma coisa depois do que possa ser dito depois
(um gole)

quando eu começo a falar os vazios
que separam meus dentes
dos ouvidos dos outros
podem
ser medidos por régua?

isso aqui é mais um exemplo do que pode
e do que não pode
(ai eu estou com medo)
no reino
menos o rei


V.

reunir
essas notas dispersas sob
o nome de “notas dispersas” ou
algo perto disso
como “ou profundo e outros ous” ou
“não-sei-o-que-do-amor conferir clarice lispector”


VI.

passeio com cachorro
manhã

uma história pra contar
você acreditaria que dois caras

capinam um terreno
mais tarde praça

divertidos
sem i ching

moeda
só pitu e limão


VII.

na próxima segunda às dez
neste canal ou noutro

tanto faz quanto tanto fez
se sua mãe era tão vária

mas você me fez lutar
perdão chame de perdão

você só tem mais do que isso
geralmente é isso


VIII.

o que é um absurdo
e não
se esqueça das revistas
a gente podia levar

esse sorvete que a gente
não gosta
as revistas lá na penteadeira
o sorvete na geladeira

elas estão esperando a gente pra
tomar um café
aquele
vestido está muito puído

que tal esse talvez eu
não tomo café
de
noite
BARÚLIO S/A: dissoluções criativas