aula: ritmo

5 de ago de 2011

Toda poética se faz a partir da concepção de ritmo que a acomete. (Todos, em tudo, somos acometidos pela concepção do ritmo.) No entanto, ritmo é uma palavra que assume múltiplas acepções, basicamente determinadas por seu uso cotidiano, mas que, apesar da diversidade das línguas e de suas culturas implicadas, tem um mesmo eixo gravitacional. De acordo com a esticologia tradicional, o ritmo está baseado nas relações métricas e entoativas do verso e não se refere a nada que não pertença ao plano sonoro, linear, temporal. A partir de analogias ingênuas com a teoria musical, se fundamenta na alternação entre unidades de tempo tônicas-fracas no compasso/verso para sua determinação. Daí a construção de uma terminologia complexa, esotérica, que se traveste de científica e que só distancia o ouvido dos sentidos envolvidos no contato com as materialidades em foco. Compreender o ritmo a partir das unidades de duração implicadas nesses processos é uma tarefa de deslocamento (ou retorno, na perspectiva etimológica) complexo. Assim como as imagens sonoras (privilegiadas pelo dinâmica métrica-tônica do verso), as imagens visuais, tácteis, olfativas e gustativas, se constituem como duração de sua percepção e, assim, se dividem tanto temporal quanto espacialmente constituindo as constelações sígnicas que são seu escopo. Assim como “As armas e os barões assinalados” dos Lusíadas de Camões e os primeiros compassos da Quinta Sinfonia de Beethoven, a Autobiografia de todo mundo, de Gertrude Stein e o filme Blow Job de Andy Warhol (etc.) se dividem em infraelementos indivisíveis que arranjados entre si constituem um ritmo, que não se baseia exclusivamente no plano sonoro, mas em todas as imagens envolvidas (sonoras, tácteis, olfativas e gustativas, incluindo-se em cada uma delas a dimensão catalisadora da memória). A poesia, assim, órfã da tradição recitativa, incorporada por meio de uma musicalidade bizarra que adestra e castra a vocalidade de seus intérpretes em favor do melífluo (esquizóide), se afasta radicalmente do verso e, por conseguinte, do tempo, pensado enquanto unidade que se processa linearmente. A poesia de texto, que é uma poesia do ritmo, se faz a partir da multiplicidade de sinais que a originam, independentemente de critérios valorativos convencionados, valendo-se de todo e qualquer material que se ofereça a qualquer sentido, a fim de processar uma escrita pansêmica, contínua e nômade.

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